Onde há busca por poder, há ausência de amor
- Débora Pereira

- 26 de mar.
- 2 min de leitura
Atualizado: 23 de jun.
“Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro.” — Carl Gustav Jung
Casos como o de Jeffrey Epstein ou a tragédia recente do pai que tirou a vida dos próprios filhos evidenciam a predominância de um poder que sufoca o amor. O poder atua como uma toxina. Ele nos embebeda com um senso distorcido de grandeza e autoimportância. Isso nos leva a crer que somos inerentemente superiores ou mais valiosos que o próximo.
O Zeitgeist — o espírito da nossa época — nos convenceu de que prestígio é sinônimo de afeto. Esse prestígio costuma vir acompanhado de símbolos de poder e da manutenção do status quo. Na prática, isso significa que, "dependendo de quem você é na fila do pão, você não precisa pegar fila". As regras não se aplicam a você. Assim, ter prestígio é gozar de privilégios, e esses privilégios são frequentemente confundidos com apreço e admiração.
Essa confusão pode explicar a nossa busca incessante por nos tornarmos importantes e influentes nos dias atuais. Afinal, ser influente altera a ordem das coisas, acelera resultados e derruba barreiras. No inconsciente coletivo, opera uma lógica que dita o seguinte caminho para o amor:
Poder ➡️ Prestígio ➡️ Privilégios ➡️ Admiração ➡️ Amor
Essa equação sugere uma conclusão: se eu detiver poder suficiente, poderei comprar o amor.
Talvez seja por isso que, ao longo da vida, fazemos escolhas que sacrificam o afeto em prol da ascensão. Frases como: “Agora não, o papai está ocupado com algo importante”; “Não posso focar em relacionamentos agora, preciso focar na carreira”; “Essa pessoa não serve, ela não me projeta para onde quero chegar” são comuns no nosso cotidiano.
Aprendemos, erroneamente, que o amor é o último estágio. Algo a ser alcançado apenas quando formos "dignos" dele por intermédio do poder. Mas, como Jung alertou, a busca pelo poder aniquila o amor. O que sobra é apenas o desejo de controlar o outro. Quando esse controle é ameaçado, o recurso seguinte costuma ser a força ou a violência.
A conclusão amarga é que, talvez, ainda não saibamos amar sem a sombra do domínio.
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